Dois de fevereiro, a cidade do Salvador se transforma. Por um dia o bairro do Rio Vermelho se ilumina com o branco das roupas e o colorido das flores oferecidas a Iemanjá. A rainha do mar. O perfume exala pelos ares e em pensamento os pedidos de proteção e agradecimentos. Acho interessante observar as diversas manifestações culturais, são elas que compuseram a nossa identidade e com resistência perduram até hoje.
Nesse momento, as pessoas se encontram em harmonia, estão ali com um objetivo, um desejo claro e explícito, de banhar-se nas águas do mar e reverenciar a rainha que o comanda. Esperar o final da tarde para admirar a saída dos pescadores em barcos que deslizam pelo manto azul de água salgada, deixando um rastro de cores e perfumes, e um som marcante que impede de nos afastar de todo esse ritual cheio de esperanças em um começo de ano.
Até aí, nada mais que fuja ao tema. A questão é que em pequenos momentos de descuido as mesmas pessoas que vão venerar a rainha das águas, poluem essas águas e as ruas do bairro. Tudo vira festa, o objetivo se perde por vezes e parece que ninguém mais vive no mesmo planeta, a não ser, somente você. Atos feitos com a consciência de que “ninguém vai reparar” ou que “todo mundo faz isso”. Aí é onde mora a hipocrisia, o pensar só em si e em próprio benefício. Os danos que cometemos hoje, se propagam para além das festas e das nossas vontades. A natureza por muito tempo, vítima da ação devastadora do homem, que resulta em grandes desequilíbrios ecológicos, infelizmente, está piorando com a falta de consciência ambiental. Não se visualiza, por vezes, melhora em nossas atitudes. Ainda não digerimos o que ocorre no planeta. Que está cada dia mais quente, que as chuvas já não são mais garoas, cheias de poesia. Tudo está alheio até chegar as nossas casas. Até ser sentido na pele. Gosto de ressaltar, que fazemos parte da natureza e que ela não nos pertence e não temos o poder de controlá-la.
O que mais me incomodou na festa de Iemanjá foram os copinhos de plástico arremessados sem nenhum pudor nas areias da praia do Rio Vermelho. E se alguém ainda vier dizer “se não fosse assim, quem iria dar emprego aos garis?”. Deste absurdo, eu pergunto; no mar existe gari?
Acredito que Iemanjá não gostaria de ver estes mesmos copinhos de plástico em suas águas. E se quisermos manter este belo ritual anual, consultemos a princípio sempre a nossa consciência. Esteja em paz com ela. Não esqueçamos que estamos em um único planeta. Que no mar existem os mesmos seres vivos que necessitam de tantos cuidados quanto nós e de organismos que auxiliam em nossa própria sobrevivência.
É tudo um ciclo, é tudo interdependente. Apenas, nós, seres humanos que queremos nos manter superiores até na destruição avassaladora de sua própria espécie.
Se for pedir, peça para que encontremos o equilíbrio, a paz, o autoconhecimento e o amor ao próximo.
Se for agradecer, agradeça por suas conquistas e pelo apoio de todos aqueles que te auxiliaram.
"Um dia, a terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos na correnteza dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão o seu espírito. Mas logo vão recuperá-lo para ensinar ao homem a reverência pela sagrada terra."
Trecho de uma Profecia feita há mais de 200 anos por "Olhos de Fogo", uma velha índia Cree.
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