sexta-feira, 19 de março de 2010

Iemanjá e os garis do Mar


Dois de fevereiro, a cidade do Salvador se transforma. Por um dia o bairro do Rio Vermelho se ilumina com o branco das roupas e o colorido das flores oferecidas a Iemanjá. A rainha do mar. O perfume exala pelos ares e em pensamento os pedidos de proteção e agradecimentos. Acho interessante observar as diversas manifestações culturais, são elas que compuseram a nossa identidade e com resistência perduram até hoje.

Nesse momento, as pessoas se encontram em harmonia, estão ali com um objetivo, um desejo claro e explícito, de banhar-se nas águas do mar e reverenciar a rainha que o comanda. Esperar o final da tarde para admirar a saída dos pescadores em barcos que deslizam pelo manto azul de água salgada, deixando um rastro de cores e perfumes, e um som marcante que impede de nos afastar de todo esse ritual cheio de esperanças em um começo de ano.

Até aí, nada mais que fuja ao tema. A questão é que em pequenos momentos de descuido as mesmas pessoas que vão venerar a rainha das águas, poluem essas águas e as ruas do bairro. Tudo vira festa, o objetivo se perde por vezes e parece que ninguém mais vive no mesmo planeta, a não ser, somente você. Atos feitos com a consciência de que “ninguém vai reparar” ou que “todo mundo faz isso”. Aí é onde mora a hipocrisia, o pensar só em si e em próprio benefício. Os danos que cometemos hoje, se propagam para além das festas e das nossas vontades. A natureza por muito tempo, vítima da ação devastadora do homem, que resulta em grandes desequilíbrios ecológicos, infelizmente, está piorando com a falta de consciência ambiental. Não se visualiza, por vezes, melhora em nossas atitudes. Ainda não digerimos o que ocorre no planeta. Que está cada dia mais quente, que as chuvas já não são mais garoas, cheias de poesia. Tudo está alheio até chegar as nossas casas. Até ser sentido na pele. Gosto de ressaltar, que fazemos parte da natureza e que ela não nos pertence e não temos o poder de controlá-la.

O que mais me incomodou na festa de Iemanjá foram os copinhos de plástico arremessados sem nenhum pudor nas areias da praia do Rio Vermelho. E se alguém ainda vier dizer “se não fosse assim, quem iria dar emprego aos garis?”. Deste absurdo, eu pergunto; no mar existe gari?

Acredito que Iemanjá não gostaria de ver estes mesmos copinhos de plástico em suas águas. E se quisermos manter este belo ritual anual, consultemos a princípio sempre a nossa consciência. Esteja em paz com ela. Não esqueçamos que estamos em um único planeta. Que no mar existem os mesmos seres vivos que necessitam de tantos cuidados quanto nós e de organismos que auxiliam em nossa própria sobrevivência.

É tudo um ciclo, é tudo interdependente. Apenas, nós, seres humanos que queremos nos manter superiores até na destruição avassaladora de sua própria espécie.

Se for pedir, peça para que encontremos o equilíbrio, a paz, o autoconhecimento e o amor ao próximo.

Se for agradecer, agradeça por suas conquistas e pelo apoio de todos aqueles que te auxiliaram.


"Um dia, a terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos na correnteza dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão o seu espírito. Mas logo vão recuperá-lo para ensinar ao homem a reverência pela sagrada terra."

Trecho de uma Profecia feita há mais de 200 anos por "Olhos de Fogo", uma velha índia Cree.


Mais Informações :

Greenpeace: http://www.greenpeace.org.br

WWF Brasil: http://www.wwf.org.br/

AMAZÔNIA - Para Sempre: http://www.amazoniaparasempre.com.br/

Clickarvore: http://www.clickarvore.com.br

quarta-feira, 3 de março de 2010

A outra face da Globalização


“Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido.”

Milton Santos

Com base na obra “Por Uma Outra Globalização – do pensamento único à consciência universal” do Prof. Dr. Milton Santos, irei escrever sobre globalização e a sua outra face, ou seja, tentando desmitificar a idéia que absorvemos através das mídias. Aquela idéia da globalização como melhora e evolução da humanidade. Não que a globalização não tenha auxiliado, e muito, ao progresso das ciências e das técnicas, mas humanamente vem nos afastando.

O ponto de partida consiste na velocidade. A velocidade como falsa concepção de aproximação global. Essa globalização arquitetada e fincada na ilusão do encurtamento das distâncias. Tudo a todo instante está à nossa disposição, ao alcance das nossas mãos. De maneira tão rápida e facilitada que aos poucos vamos perdendo o hábito de fazer uma boa leitura ou de apenas admirar e estudar o que está na natureza, ao que está em nosso redor.

Daí vem o conceito de aldeia global com o objetivo de tornar o planeta homogêneo. Porém, esse conceito é um tanto traiçoeiro, pois os instrumentos de comunicação não são oferecidos e acessados por todos os indivíduos de maneira igualitária no planeta, assim, intensificando cada vez mais os conflitos locais. Então, a principio, as desigualdades e os preconceitos não fazem parte dos planos da globalização. Deixando de lado o desejo de uma real cidadania universal. Os conflitos sociais cada vez mais evidentes propagam-se como “mazelas sociais”, dentre eles; o desemprego, a pobreza, o desabrigo e a fome, o difícil acesso a educação pública de qualidade. Abrindo espaço aos males morais como a corrupção que tanto nos aflige na contemporaneidade. Já que a política vem perdendo o seu objetivo de preservar o meio social e as relações.

Passamos por uma crise real, sendo ela econômica, social, política e moral. Tal crise consiste pelo aumento desenfreado do consumismo. O consumismo e o individualismo alicerçados nas idéias liberais nos tornam mais competitivos e perversos perante a sociedade. Os interesses individuais tomam mais destaque em nossas vidas e os nossos princípios morais consistem no pressuposto de levar vantagem e adquirir privilégios em qualquer situação, sem medir as devidas conseqüências. A competitividade está ligada a ausência de compaixão.

“A competitividade comanda nossas formas de ação. O consumo comanda nossas formas de inação. E a confusão dos espíritos impede o nosso entendimento do mundo, do país, do lugar, da sociedade e de cada um de nós mesmos.”

Milton Santos

“Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa...”

Milton Santos

Pertencemos, hoje, a uma dupla tirania. São elas: o dinheiro e a informação. Juntas elas irão dar as características da nossa época, interferindo nas relações sociais e interpessoais, influenciando no caráter dos indivíduos, formando a base dos novos totalitarismos.

É necessário, termos cuidado ao absorver as técnicas da informação, pois uma informação utilizada em função de objetivos particulares é transmitida a humanidade de maneira manipulada, que ao invés de explicar, vem cheia de equívocos na utilização do seu discurso e da sua retórica. Em que, a publicidade na sociedade contemporânea tem o objetivo maior de convencer do que de instruir. A informação é entregue ao receptor de maneira maquiada e alienadora resultando em atuais fábulas e mitos sociais.

Em relação ao dinheiro, ele é uma espécie de violência, onde a internacionalização do capital financeiro baseia-se na exploração de um país pobre ou emergente por um país economicamente desenvolvido. Não podemos transformar a vida em capital e nem nos mantermos escravos de algum sistema social. Pois o que encontramos ao nosso redor são indivíduos, todos ou quase todos querendo nos dominar. Sem contar, que cada vez mais os fenômenos desiguais da sociedade são considerados banais, ou seja, faz parte de um processo natural, o que é um absurdo.

Podemos modificar essa visão do processo de globalização, a partir do momento que a tornarmos mais humana. Que ao invés de a utilizarmos como objeto de segregação e individualismos, a utilizarmos com outros objetivos, ou seja, a serviço de bases políticas e sociais. A princípio, precisamos nos atentar a grande diversidade étnica, cultural, política, presentes em todo o mundo, pois só assim poderemos melhor compreender o que se passa em cada lugar. Que haja através da informação uma troca e mistura de experiências e idéias, buscando um verdadeiro processo de constituição da cidadania, da universalidade social, com tolerância e respeito.

Por conta do atual dinamismo, é necessário também que exista uma visão crítica que possibilite a cada indivíduo construir sua própria história interligada ao interesse social. A ter consciência que os problemas que enfrentamos em nosso país não são os mesmos problemas encarados por outros países no planeta, logo, não existe uma solução única. Nessa perspectiva é que a globalização não unifica, sendo assim indispensável um caminho mais humano em busca de uma verdadeira concepção de união.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

de Tudo isto aqui


Escrever é um ato muito íntimo. É um grito da alma, sussurro do coração, a voz da razão. A hora da inspiração e o insustentável desejo de se expressar.

Esse é um projeto de tempos, guardado na mente e adiado por vezes com a desculpa da persistente rotina. Mantenho um comprometimento com tudo aquilo que está em meu ser e ao meu redor. Não me resumo a “mim”, me transbordo em “nós”. Tenho a necessidade e responsabilidade de conservar o que faço, o que falo, o que aprendo, o que cativo e por aí vai... Entrego-me da maneira mais sutil e intensa às belezas da vida e ao caos do mundo. Talvez por isso, tenha levado tanto tempo para concretizar esse espaço, ele não poderia ficar pela metade. Não sou metade, sou inteira a todo instante. Quero a simplicidade, a generosidade, a compaixão aos anseios da multidão, a não-acomodação.

Vou tentar reunir neste espaço a minha paixão pela comunicação, o encantamento pela literatura e o fascínio pelos elementos que nos constituem em todos os aspectos.

Enfim, o objetivo aqui é expor idéias, opiniões, críticas e eternos devaneios. Pegarei emprestado versos, artigos e inspirações de diversos outros autores para auxiliar na construção de pensamentos e da melhor fluência de sentimentos.

Veja, leia. Deguste ou regurgite, mas experimente.

Bem vindo!


“Pão é amor entre estranhos”.

Clarice Lispector